DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

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DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Flávio de Souza em Seg 22 Mar 2010 - 13:46

A proposta aqui presente é o desenvolvimento de um texto, de tamanho livre, no ambiente da ficção científica em qualquer de suas vertentes, visto que, não temos muita experiência, como escritores, nessa área. As obras poderão ser postadas aqui mesmo nesse tópico. Após o último texto, podemos editá-los numa área específica para melhor visualização. Como prazo para conclusão, poderíamos fazer uso de, digamos, duas semanas ( 22/03/2010 a 05/04/2010 ). Peço que busquem uma imagem inspiradora para o conto e postem junto do texto.
E então? Mãos à obra!


Última edição por Flávio de Souza em Seg 22 Mar 2010 - 20:07, editado 1 vez(es)
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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Pacheco em Seg 22 Mar 2010 - 17:34



O Mundo de Marvin

Uma rajada de vento, frio e seco percorreu-lhe o corpo. Ouvia vozes distantes que lhe eram difíceis de ser compreendidas. Sentiu uma mão quente e macia tocar-lhe o braço e isso foi agradável. Inspirou fortemente e abriu os olhos. A iluminação o incomodou, como se houvesse muito tempo que não a experimentava, mas resistiu. À beira de sua cama estava uma linda mulher, com cabelos negros, curtos, mas que ultrapassavam os lóbulos de suas orelhas. Aproximava de seu braço algo similar a uma caneta. O homem segurou-a fortemente.
– Quem é você? – disse ele.
– Seja bem vindo! Sou sua enfermeira...
– Enfermeira? O que estou fazendo aqui? – disse ele soltando os eletrodos que estavam conectados a seu corpo.
– Não faça isso! – disse ela ao que ele apertou ainda mais seu braço.
– Solte-me! Está me machucando! – disse ela com lágrimas nos olhos, se contorcendo de dor.
O homem a soltou e enquanto ela se recuperava, saltou da cama, e caminhou passos precisos em direção à porta, mas a mulher tentou impedi-lo.
– Não pode fazer isso senhor! – disse ela segurando-o, mas ele atirou-a sobre a cama em que estava, com extrema força.
Outros enfermeiros o avistaram no corredor e tentaram detê-lo, mas ele correu sobremaneira, esbarrando em várias pessoas. Atravessou macas no caminho para dificultar seus perseguidores, e com isso ganhou distância e entrou em uma porta qualquer. Era um vestiário, para sua sorte. Já era hora de por uma roupa...
– O que estou fazendo aqui... – repetia ele. – Acho que os despistei... – pensou. Vestiu um uniforme de enfermeiro, que furtara de um dos armários. Assim seria mais fácil sair dali.
Saiu do quarto à procura da portaria. Nos corredores tinha gente correndo para lá e para cá. Felizmente não o reconheceram. As paredes eram extremamente brancas e o ambiente muitíssimo iluminado. As roupas que as pessoas usavam eram um tanto diferentes, assim como o sotaque. Passou em frente à sala em que estava. “RECUPERAÇÃO DE CRIOGENIA” estava escrito na porta. Então era isso! Estava infectado por essa tal doença, a criogenia. Devia ser ela que causava essa terrível dor de cabeça... Mas como foi parar ali?
Avistou a porta principal. Finalmente sairia deste lugar. Já sentia a claridade externa quando percebeu a proximidade de alguém. Não olhou para trás, porém se apressou.
– Hei! Você! – gritaram.
Lá estava ele correndo novamente. Enquanto corria, deu uma olhadela para trás. Um batalhão de policiais estava em seu encalço. Usavam um uniforme parecido com uma armadura, de cor metálica, com algumas partes compostas de neoprene. Usavam também um capacete que cobria toda a cabeça, nos mesmos moldes da roupa, com visores esféricos. Empunhavam armas estranhas.
Chegou a um estacionamento, pulou em uma moto e deu a partida. Um pequeno propulsor sob suas pernas foi acionado e ele começou a ganhar altura. Mas isso não era possível! O veículo não tinha rodas, assim como todos os outros que ali estavam. – Devo estar ficando louco! – pensou. A moto ganhou cada vez mais altura e só agora pode perceber os prédios. Eram altíssimos, com formas estranhas e em sua maioria espelhados. Vários automóveis circulavam a uns cinqüenta metros do chão. Os policiais o perseguiam em máquinas similares a dele, em alta velocidade, porém seu aparelho desviava dos obstáculos com maestria. Mais tarde veio a descobrir que sua máquina estava equipada com um sensor de alta definição que corrigia automaticamente sua rota. Nenhum veículo saía de fábrica sem o equipamento...
Embora tentasse despistar, seus algozes estavam cada vez mais perto. Foi então que apareceu uma outra moto, que se emparelhou a dele.
– Por aqui! – disse a pessoa, que usava um estranho capacete, formado por um grande visor. Ele não tinha muitas pessoas em quem confiar, então seguiu.
Seu novo amigo guinou a moto em direção a dos edifícios e não ameaçou desviar da parede que surgia rapidamente à sua frente. No momento exato, puxou o guidom para si, rumando o aparelho para o zênite, e ele fez o mesmo. Um de seus algozes, porém, não teve a mesma sorte, batendo em cheio na construção. Era sua chance de livrar-se dos outros!
Chegaram até outro edifício, aparentemente abandonado. Pararam em um dos andares, que era um estacionamento. Para sua surpresa, seu amigo tirou o capacete, soltou os longos cabelos ruivos e se aproximou. Era uma mulher!
– Tudo bem? – disse ela. Sua pele era clara e seus olhos castanhos. Apesar de simpática, seu olhar era inexpressivo.
– Mais ou menos... – disse ele com uma das mãos na testa. – Não estou entendendo nada, e sinto uma terrível dor de cabeça!
– Meu nome é Zaila. Qual é o seu? – disse ela pousando a mão sobre seu ombro.
– Eu... eu não sei! Não me lembro! – disse ele cabisbaixo.
– Você tem cara de Marvin...
– Ora, chame-me como quiser! – Quero apenas voltar para minha casa!
– E por que eles estavam te perseguindo? Você me parece inofensivo... – disse ela após examiná-lo com os olhos.
– Eu, também não sei. Mas que droga! – disse ele dando um soco na parede. – E o que fizeram com as rodas dos carros? – disse com o olhar perdido.
– Como disse?
– A roda dos carros! – disse ele. – Não entendo onde foram parar! E essas roupas? Que moda mais estranha essa de usar as golas para cima. E elas têm um brilho demasiado forte. Tudo é muito estranho! Os prédios, as pessoas, o sotaque, carros que voam, homens de armadura... – disse ele após um suspiro. – Parece que estou numa viagem de ácido lisérgico! – disse caminhando de um lado para o outro.
– Decerto que perdeu a memória, Marvin, mas vou tentar ajudá-lo. – disse serenamente. – Os policiais devem estar ocupados socorrendo seu amigo, de modo que temos ainda um pouco de tempo. Sente-se um pouco. – disse ela enquanto era obedecida. – Em 2012 houve um terrível colapso nuclear, que dizimou um terço da humanidade. O presidente de um dos maiores países do mundo foi assassinado em território estrangeiro...
– Você falou 2012? – disse ele se levantando, boquiaberto. – Que brincadeira é essa?
– Não há brincadeira alguma. Procure se acalmar... – disse ela tirando uma mecha de cabelo vermelho que caíra sobre a testa.
– Mas que história é essa? Estamos em 2010, sua louca! –
– Acalme-se, você entenderá... Como eu disse, depois que o presidente foi morto, seu país contra atacou com mísseis e o outro respondeu da mesma forma e alguns países se aliaram a eles. Era a Terceira Guerra. Durou apenas um ano, não havia condições para mais que isso. Os países vitoriosos perceberam ao final que o planeta devia ser abandonado imediatamente. A vida na Terra tornou-se um desafio. Grandes naves foram construídas para a viagem. Receberam o nome de arcas. Já haviam descoberto água em Marte, de modo que ele tornou-se nosso refúgio...
– Então estamos em Marte?!
– Veja... – disse ela pegando um aparelho do bolso. Era quase que apenas uma tela, com pequenas teclas nas extremidades. Abriu um jornal do dia. Estava escrito: “Colônia de Marte, 07 de outubro de 2049”...
– Não é possível... – murmurou ele. – O céu é o da Terra... – disse ele olhando para cima.
– O céu é apenas uma projeção, para tornar o ambiente parecido com o da Terra. Somente à noite o céu que é visto é o de Marte. – disse ela guardando o aparelho. – Agora acredita?
– Acho que... sim, mas eu não entendo como...
– Depois que as arcas foram construídas, reuniram as espécies de animais que sobreviveram, e os povos do Terceiro Mundo, pois entenderam que eles seriam os que mais sofreriam. Na fuga, houve um acidente, e algumas arcas colidiram, na órbita da Terra. Os que chegaram aqui conseguiram reproduzir quase que perfeitamente nosso habitat. Ainda hoje existem algumas expedições para a Terra, a procura de sobreviventes, todas sem sucesso.
– Isso não faz sentido! Veja: por que os países que ganharam a guerra não escaparam da Terra primeiro? Por que deram prioridade para os derrotados, pobres do terceiro mundo? São bonzinhos? – disse ele se aproximando da rampa da garagem, ficando de costas para ela.
– Onde estão eles? Estão aqui também ou ficaram lá?
– F-ficaram lá... – gaguejou ela.
– Foi o que eu pensei. Não acha que o natural seria que eles fugissem, pouco importando os perdedores? Eu acho que o Terceiro Mundo comprou gato por lebre...
– Você é um homem muito esperto Marvin... A criogenia parece não ter afetado sua inteligência... – disse ela se aproximando.
– Não sei como me infectei com essa doença, mas... espere... – disse ele virando-se devagar. Estava visivelmente perturbado. – Em nenhum momento eu lhe falei sobre isso!
Ela estava à sua frente, com o corpo muito próximo ao seu. Atrás dela, à distância, havia alguns militares com as armas estranhas miradas nele.
– Você mentiu para mim! – disse ele se afastando de costas para a rampa.
– Tente entender Marvin, é trabalho. Criogenia não é uma doença, é uma técnica de congelar corpos e reanimá-los anos depois. No ano terrestre 2008 foram feitos os primeiros testes com humanos. A intenção era incorporar o processo ao sistema prisional em todo o mundo. Não haveria problemas de fugas e rebeliões...
– Então sou um criminoso?
– Não. Você foi um voluntário para os testes. Era para ter sido descongelado após dois anos, mas na fuga sua câmara de criogenia foi misturada equivocadamente com as câmaras dos aprisionados. Sinto muito...
– Sente muito? Eu perdi anos de minha vida!
– Doutora, saia da frente! – disse um dos soldados com a voz metálica, mas ela não obedeceu.
– Neste tempo, já aprenderam a voar Zaila? – disse ele agarrando-a.
– O que está fazendo? – disse ela assustada.
– Fugindo... – disse ele pulando de costas da rampa, levando consigo a Dr.ª Zaila.
– Doutora! – gritou um dos militares se aproximando da rampa, mas não podiam fazer mais nada. Por um momento acreditaram que ambos haviam morrido, mas um dos soldados os avistou em fuga, numa moto em altíssima velocidade.
Marvin sabia que enquanto estivesse com ela, não fariam nada a ele. E ademais, precisava descobrir o que havia acontecido realmente ao seu mundo. Teria ele sido destruído, ou tudo não se tratava de uma grande conspiração?
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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Flávio de Souza em Qui 25 Mar 2010 - 20:32

PONTO CEGO




Segunda-feira, 23 de Março de 2009, 16h23min. Um Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira sobrevoa o tapete verde e espesso da região norte dos domínios brasileiros. Horas antes, falhas inexplicáveis nos radares do Cindacta IV abriram um grande ponto cego naquela área, impossibilitando que os vôos comerciais cumprissem a rota usual rumo a América do Norte, fato que proporcionou um verdadeiro caos nos aeroportos e céus do país. Um desvio alternativo, com escalas através do litoral, começou a ser utilizado, amenizando, ainda que superficialmente, o terrível transtorno.

Entretanto, a presença dos militares na Amazônia não correspondia, unicamente, a uma falha instrumental a ser averiguada, longe disso. Antes do colapso total no sistema, os controladores de vôo haviam detectado um estranho fenômeno nas telas: uma mancha simétrica e crescente, em forma de funil e que piscava de maneira intermitente até desaparecer completamente, levando consigo todas as informações dos computadores.

Obviamente o Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro articulou a situação para que tais dados não se tornassem públicos. Dois caças Rafale, recém adquiridos da França, partiram da Base Aérea de Natal, no intuito de colher os primeiros dados da onda intermitente. A operação aérea acabara por mostrar-se um total fiasco. Nada encontraram no perímetro delimitado, os instrumentos das aeronaves nada indicavam, tampouco a análise visual, apenas o mar verdejante e sem fim. Era como se a manifestação desconhecida nunca tivesse acontecido.

Por conta disso, a última cartada seria mandar uma equipe de solo para a região. Mas, como não havia a menor possibilidade de pouso naquelas condições tão adversas, acharam por bem enviar o Grupamento de Infantaria de Selva, numa ação conjunta com o Exército. O gigantesco pássaro de aço sobrevoaria o local exato indicado pelas coordenadas, e os pára-quedistas saltariam em busca do desconhecido.

Nenhuma informação, além dos mapas de satélite, existia acerca daquela localidade. O ponto desejado era um dos inúmeros redutos de mata virgem no chamado pulmão do mundo. O C-130 se aproximava do Ponto Cego, nome da operação e também da área de exploração, os soldados já estavam preparados para a evasão, foi quando os primeiros sinais de anormalidade no painel do Hércules começaram a alarmar os pilotos.

- Fox-Alfa-Bravo-2451 para Comando Central. Fox-Alfa-Bravo-2451 para Comando Central. Responda, Base. Instrumentos em pane. Falha completa nos motores da asa esquerda, mau funcionamento no Três e também no Quatro. Iminência de pane total!
Não havia respostas no rádio. Nem mesmo a estática se fazia presente. O comandante insistia no contato, embora as horas de vôo que carregava nas costas lhe dissessem que de pouco adiantaria uma quebra na mudez absoluta. O co-piloto foi o primeiro a notar, ao olhar o espaço aberto, que o ar parecia se movimentar, não como numa lufada de vento, era como se camadas invisíveis se sobrepusessem umas às outras, formando vários círculos, semelhantes aos que surgem num espelho d’água ao contato de uma pedra atirada.

Instantaneamente a estrutura que formava a aeronave entrou em colapso. Placas metálicas eram arrancadas, rompendo o ar com violência. Pontos dispersos no espaço indicavam que o grupo de selva havia se lançado mesmo não estando sobre o local previamente combinado. Não havia mais qualquer possibilidade de controlar o Hércules, razão pela qual as mochilas de salvamento já estavam atreladas às costas dos pilotos, e estes, numa mescla de desespero e pressa, já haviam cruzado o largo charuto metálico em busca da rampa de salto.

Enquanto desciam em queda livre, puderam observar, atônitos, o gigante se desintegrar e seus pedaços formarem uma chuva sólida e ameaçadora. Logo abaixo, os pára-quedas abertos dos soldados estranhamente se uniam como flores em um buquê. Dentro do vórtice, os pilotos sentiam fortes pontadas na pele, era como se milhares de agulhas eletrificadas lhes infligissem dor através de açoites e choques.[/justify]



Exatos cinco minutos depois da escapada, eles tentavam se desvencilhar da folhagem espessa das enormes copas. Uma tarefa árdua, mas que eles executavam com satisfação. O solo, e com ele a salvação, estava a alguns metros do alcance dos seus pés.

O sol ainda brilhava forte no final de tarde, mas, no interior da selva, os raios luminosos oriundos dos céus não conseguiam vencer o poder da barreira verde, o que proporcionava a mais absoluta escuridão. O dispositivo sinalizador que cada membro da missão trazia no equipamento favoreceu a rápida reunião da equipe.

- Parece que apesar do imprevisto, a sorte não nos abandonou. A ação das ondas magnéticas nos lançou para mais próximo do nosso alvo. De acordo com o GPS, que por obra de algum milagre não apresenta distúrbios, estamos a cerca de trinta quilômetros do Ponto Cego.

- Desculpe Tenente, mas sem uma trilha, envoltos pelas trevas, levaremos horas para vencermos essa distância.

- Eu sei, sargento. Mas ninguém aqui está ferido, e esse grupo não é referência nesse campo à toa. Vamos cumprir nossa missão. Chegar até o local determinado e descobrir o que está acontecendo. Tentaremos contato com o Comando Central através do rádio via satélite. Não temos tempo a perder, vamos.

De fato, as previsões acerca dos obstáculos mostraram-se mais do que corretas. A lâmina dos facões abria caminho, com dificuldades, através da vegetação cerrada. O solo irregular extenuava-os ao extremo. O calor era insuportável. Mas, o desafio da selva não era a maior preocupação do experiente grupo. Na verdade, o que mais causava incômodo era a sensação de que olhos curiosos se espalhavam ao redor da equipe ao longo de todo o percurso. Não havia registro de nenhuma aldeia ou qualquer atividade humana naquela área, o que tornava a situação uma incógnita tão grande quanto a que buscavam esclarecer no local tido como alvo.

O tenente, líder da operação, tentava se manter frio mediante a situação que se apresentava. As instruções do QG, fornecidas por telefone, haviam sido claras: chegar ao objetivo a qualquer custo, o resgate seria enviado tão logo a missão estivesse concluída.

Fazendo uso de códigos pré-estabelecidos, os soldados abraçavam as armas e se mantinham alertas, a espera da ordem definitiva. Reflexos eram percebidos na escuridão da mata, os feixes de luz das lanternas dançavam de um lado para o outro. A tensão já alcançava o limite máximo quando um pequeno ponto brilhante ganhou um espaço aberto entre o grupo militar, quase imediatamente o objeto lançado eclodiu numa explosão surda, um flash cegante iluminou as entranhas da floresta, os soldados foram ao chão, desfalecidos.

********************************

O piloto foi o primeiro a recobrar os sentidos, mas, por alguns instantes, julgou ainda estar mergulhado no delírio de um sonho. Assim como ele, seus companheiros estavam atrelados a macas metálicas, totalmente entregues a vontade dos indivíduos que os cercavam. Estes eram muitos, inúmeros. Eram homens e mulheres, jovens e velhos, até mesmo crianças. Embora alguns ostentassem uma espécie de máscara no rosto, a maioria mostrava sua face de traços tão familiares, eram índios, não havia como negar, apesar das vestes incomuns.

Um a um os militares acordavam, todos partilhavam do mesmo estarrecimento experimentado pelo comandante do C-130 despedaçado. Não tinha como ignorar a presença imponente daquelas pessoas, que apesar do rosto tão ingênuo, exibiam um porte ameaçador mediante o uso de trajes inimagináveis. As roupas eram reluzentes, brilhantes, fascinantes. Resplandeciam em dourado cintilante, pareciam feitas de ouro, mas com uma leveza e aderência impressionantes.

Os soldados estavam tão chocados com a presença dos indígenas de ouro, que não atentaram para o que estava no fundo da clareira: uma construção de uns quinze metros, em formato de pirâmide, incrustada da terra. A superfície do artefato cintilava numa tonalidade semelhante a das vestes dos nativos. Quatro pilares, também compostos pela mesma liga dourada, ladeavam o monumento. Era dali que se originava a onda magnética vista anteriormente pelos militares. O fenômeno movimentava o ar, faíscas eram vistas nas extremidades dos postes. Não havia uma palavra capaz de traduzir o impacto que o cenário proporcionava. Se a lenda do El Dorado tivesse fundamento, sem dúvidas não haveria melhor lugar para comprová-la.

Um dos indígenas se aproximou. Suas vestes douradas diferenciavam-se das outras. Ele ostentava um longo chapéu cônico. Parado diante da plataforma que prendia os militares, ele começou a falar numa língua estranha, mas que, inexplicavelmente, fazia sentido na mente dos prisioneiros. Ele desejava saber qual dos homens brancos era o líder, o tenente se manifestou, e o indígena foi até ele.

Cercado por uma escolta, o comandante da operação foi obrigado a segui-lo. Eles caminharam até a formidável construção, os olhos do militar brilhavam. O suposto cacique mostrou-lhe que cada um dos pilares escondia uma câmara preenchida por um tipo de reservatório, o qual era ligado ao lado externo por uma canaleta que terminava numa plataforma metálica, semelhante a que prendia os outros.

O índio explicava que aquilo era apenas uma pequena parcela do que existia. Pois havia muito mais, uma civilização inteira construída com as dádivas da floresta, erigida com os ensinamentos dos Deuses. Estes haviam chegado há muito tempo, por obra do acaso, e tentavam estabelecer uma linha de contato com um mundo além da compreensão, pois estavam irremediavelmente presos ali. Imediatamente o tenente ligou esse detalhe aos constantes pontos cegos naquela região. Porém, o que o líder da missão não sabia, e nem poderia imaginar, era que ele e todo o seu grupo, faziam parte de algo maior.

Essa compreensão não fora transmitida pelo chefe indígena, este se limitara apenas a sorrir enquanto os outros militares eram arrastados até as plataformas ao redor da pirâmide. O tenente tentou se desvencilhar e ajudar seus companheiros, mas suas intenções foram sobrepujadas pela escolta a sua volta.



Um a um os soldados foram posicionados nos pontos determinados, locais estes cuja finalidade estava mais do que clara naquele momento. O cacique, falando ao tenente, explicou que ao longo dos anos faziam uso de oferendas próprias para o sacrifício, mas os resultados obtidos não atendiam às expectativas dos Deuses. Entretanto, seria bem possível que os homens que ali estavam, portadores dos nutrientes da modernidade, pudessem, enfim, satisfazer o desejo dos Mestres Celestiais.

Os soldados eram colocados nas chapas reluzentes. Inúmeros filamentos brotavam do metal e perfuravam a carne dos prisioneiros. Os fluídos vitais dos homens eram transferidos para dentro da câmara, acumulando-se nos reservatórios. Os corpos exangues eram substituídos rapidamente. O tenente assistia, impotente, ao extermínio de sua equipe. Alguma reação química parecia acontecer nos compartimentos, eles funcionavam como pilhas, os pilares acendiam enquanto fagulhas percorriam a superfície metálica da construção. O dourado dava lugar a uma transparência cristalina. O material humano havia se convertido numa espécie de combustível orgânico. O líder dos militares admirava, assombrado, o interior da pirâmide, onde vários corpos mumificados jaziam cuidadosamente arrumados no piso.

Eles aguardam o renascimento! A voz do índio ecoava diretamente em sua mente. As ondas magnéticas pulsavam com mais força, causando pânico até mesmo nos nativos.



O líquido orgânico borbulhava nos reservatórios. O faiscar era intenso. Raios originaram-se dos quatro pilares e se mesclaram em um só, o qual se lançou com violência no céu noturno e desapareceu. Logo, tudo ficou em silêncio. As ondas magnéticas cessaram por completo. Falando com os membros de sua tribo, o cacique ordenou que levassem o último prisioneiro para o altar do sacrifício. O tenente parecia resignado, fracassara por completo na missão.

Foi quando a atenção de todos se virou para as estrelas. Uma súbita e magnífica esfera dourada planava sobre o descampado. Por um momento o militar ficou livre, porém, como os demais, estava fascinado com o espetáculo luminoso proporcionado pelo objeto no céu.

- Eles voltaram! Eles voltaram! – Gritava o cacique em sua própria língua, sem se fazer entender pelo prisioneiro, desta vez.

A esfera brilhava de maneira mais intensa, não seria exagero dizer que ardia como o fogo. O tenente pressentiu algo de ruim e correu sem ser impedido pelos membros da tribo. A bola de fogo parecia estar prestes a explodir, mas ao invés disso, lançou um raio luminoso que correu livre de encontro à extremidade da pirâmide. O monumento metálico voltou a se acender. Um estrondo surgiu acompanhado por um tremor de terra. Todos, com exceção do tenente, que exigia das pernas mais do que elas poderiam fazer, foram ao chão.



Como mágica, a construção se erguia, mas, ao contrário do que aparentava, não se tratava de uma pirâmide, era um fabuloso losango de cores e brilho! Lentamente ele deixou a terra, lançando pedras e vegetação em todas as direções. Quando estava a uma altura de uns vinte metros do solo, lançou um jato incandescente para baixo, rompendo os céus numa velocidade indescritível. A esfera dourada seguiu alinhada ao seu lado. O raio despejado pelo losango incinerou tudo num raio de cinqüenta metros, levando pânico e morte aos indígenas, acabando com seus sonhos e esperanças.

O tenente corria às cegas pela mata. Ele sabia que somente um milagre poderia livrá-lo da morte certa na selva fechada. Talvez, ele estivesse fadado a nunca poder compartilhar o que seus olhos haviam testemunhado. Seria muito difícil uma tentativa de resgate mediante o caos instalado naquela clareira, sua experiência dizia isso.



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Terça-feira, 24 de Março de 2009. 04h55min. Três caças Mirage III saíram em perseguição de objetos não identificados captados pelos radares da Base Aérea de Anápolis. Foram oito minutos de caçada pelos céus do Planalto Central, até que os objetos simplesmente desapareceram por completo dos computadores e do campo visual. Esta informação nunca viria a público.



*****************************
Terça-feira, 24 de Março de 2009. 07h01mim. Um boletim matinal de notícias informava que um incêndio de proporções descomunais tomava conta, naquele momento, de uma grande extensão da Floresta Amazônica e se alastrava rapidamente. Uma verdadeira catástrofe, de perdas incalculáveis para a natureza. As causas ainda eram desconhecidas, mas tudo indicava a ação de madeireiros, guerrilheiros de países vizinhos ou qualquer outra atividade clandestina. Os registros da FUNAI não apontavam nenhum povoado indígena na região, felizmente, segundo o apresentador.



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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Afonso em Sab 3 Abr 2010 - 0:20

E aí, rapazes. Tentando mudar um pouco o gênero... é difícil, né? O interessante foi perceber que os dois contos ( do Pacheco e do Flavio ) adotaram uma linha soft de Ficção Científica, é aquele estilo que não exige grandes explicações científicas e tal. Nem podia ser diferente porque os amigos não são especialistas. O resultado ficou interessante, considerando que os dois tem pouca experiência em escrever FC e provavelmente não são leitores apaixonados pelo gênero. Escreveram o que tinha de mais próximo de si.

O Pacheco, numa trama futurista, deu um ritimo policialesco ( será que existe esta palavra!!! ) que está impregnado nas fibras de seu ser criativo. A história em si, é bem verdade, para quem acompanha FC, não é algo que podemos chamar de original, mas o conto tá bem redondinho, flue visualmente bem para quem lê, principalmente as perseguições ao personagem desmemoriado.

O Flavio, um pouco sem jeito no começo da narrativa ( considerando que também não está lá muito acostumado com a FC ) adotou um estilo formal e jornalístico para descrever os eventos. Parecia que eu estava lendo uma matéria da revista veja, mas isto, claro, pode ter sido propositalmente o estilo que ele resolveu adotar de início mesmo. Foi assim que senti ao ler o texto. Mas depois que o avião cai, o velho Flavio, está no seu habitat, com as descrições pavorosas daquela pirâmide vampírica, numa mirabolante ideia de indios induzidos por uma raça alienígena.

Foi uma experiência interessante ler os dois contos.

Bem, olha, vi aqui ler os contos com muita atenção, vim prestigiar a iniciativa dos amigos, mas eu não sei se vou conseguir escrever alguma coisa até a segunda-feira, prazo final do exercício. Há dez dias atrás eu estava com um pensamento, hoje já estou as voltas na organização de um Desafio Literário baseado em imagens no site Contos Fantástico com o tema... pasmem... Ficção Científica também, que gosto muito. Achei a idéia do Flavio muito boa. Já fazia tempo que eu queria fazer algo assim lá no CF pra sair um pouco da rotina. E se tudo der certo, pretendo futuramente fazer um de Terror e outro de Alta Fantasia.

Convido os amigos para participarem, vai ser interessante. Estou levantando algumas obras de FC para premiar os vencedores do Desafio. Quando tudo estiver a contento, faço o convite formal a galera do forum.

Grande abraços, manos!
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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Poleto em Dom 4 Abr 2010 - 22:43

Tentei escrever ficção científica duas vezes na vida... as duas foram um fracasso total.
Aliás, vou até postar aqui a última tentativa. Os amigos vão perceber que, no fundo, não há NADA de FC no conto. Melhor eu continuar no meu terrorzinho de sempre, que é mais seguro. Smile
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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Poleto em Dom 4 Abr 2010 - 22:55




Não existe tal lugar
Luiz Poleto
Escrito entre 24 de Novembro e 04 de Dezembro de 2008

Para Ricardo Luiz

À minha frente, o deserto estendia-se vertiginosamente por milhares de parsecs. Os sóis brilhavam imponentes no céu, despejando um tom alaranjado àquela paisagem populada abundantemente com o nada em estado bruto.
Sob meus pés, a areia cinzenta parecia tentar acompanhar-me qualquer que fosse a direção que eu rumasse, mas não sei se posso dar qualquer crédito a esta afirmação, já que o sol escaldante pode ter afetado profundamente a minha capacidade de distinguir a realidade da fantasia. Ou não.

Por quantas horas eu caminhei, não faço idéia; a direção para a qual rumei também me é totalmente desconhecida, mas ao longe, não muito distante, avistei uma imensa muralha, que parecia estender-se por todo o horizonte. Por cima dos muros, imponentes edifícios erguiam-se quase tão colossais quanto a própria muralha. Apesar do tamanho, suas formas eram tranqüilizantes, construídos com uma arquitetura envolvente, a qual eu nunca vira antes, e apesar de sua aparência desgastada e morta, ainda assim pareciam novos e brilhantes.

Quando cheguei ao imenso portão de entrada, uma pessoa – que apesar da aparência humana, eu tinha certeza que não o era – estava parada, de pé, como se estivesse me esperando. Estendeu a mão, e quando retribuí o gesto, trocamos um forte aperto de mãos.
– Seja bem vindo. Imagino que esteja cansado, portanto, apressemo-nos e deixemos a conversa para depois. – disse-me o estranho com a voz mais suave que eu já ouvira. Ouvi-la era como ouvir a canção dos deuses, e causava-me tremendo bem-estar.
Apenas acenei positivamente a cabeça em resposta.
Devo confessar que toda aquela hospitalidade me era estranha, e não fosse a sede e a fome que eu sentia, eu não teria aceitado, embora aquele fosse o único local visível por todo aquele deserto. Além do mais, eu não conhecia aquele homem, ou aquela cidade.

Caminhamos por alguns minutos por uma rua larga, feita com a mesma pedra que vi na muralha. Muitas pessoas caminhavam na rua, e todas que cruzavam comigo acenavam sorridentes. A surpresa só me permitia acenar de volta.

Chegamos a uma espécie de praça, e logo sentamos em um banco. Antes que eu pudesse pronunciar qualquer palavra, outras pessoas, muito semelhantes ao meu anfitrião, prepararam uma farta mesa. Frutas de todas as cores, tamanhos e formatos, pães, geléias, queijos, sucos, e outros alimentos não identificados formavam uma vista tão agradável quanto um pôr-do-sol na praia.

Hesitei um pouco, mas não resisti e ataquei aquele banquete. Durante alguns minutos, comi e bebi sem parar, como se não houvesse amanhã.
– Onde estou? – Foi a primeira pergunta que me veio à cabeça, e a única que consegui fazer com a boca ainda cheia.
– Chamamos este lugar de lar. O lugar onde vivemos. – Ele me respondeu com aquele ar sereno que o acompanhava desde que nos encontramos.
– Mas qual o nome deste lugar? Esta cidade tem um nome, não?
– Nome? Para que nomes? Este é o nosso lar, e isso basta.
– E você, tem um nome? – Perguntei, colocando o prato de lado e levemente satisfeito com o meu pequeno banquete.
– Não. Eu sou eu, e isso basta. Todos aqui neste lugar se conhecem, não precisamos de nomes.
– Quem é você, afinal? Prefeito, presidente, assessor?
– Não temos este tipo de estrutura aqui. Ao longo dos séculos, ficou comprovado que este excesso de hierarquias é falho e totalmente prejudicial à ordem. Este sistema foi um dos motivos do colapso da sua civilização.
Enquanto eu pensava sobre o que o estranho sem nome acabara de me dizer, peguei-me surpreso com uma das frases que ele disse. “Ao longo dos séculos”.
– Em que ano estamos? – Eu estava quase gritando quando fiz esta pergunta.
– Não sabemos. O tempo parou de ser contado. Não existe utilidade prática para isso.
Eu parei, perplexo. Não conseguia imaginar uma civilização que não contasse o tempo. E tentei argumentar:
– Em minha civilização, tudo é baseado no tempo. Sem ele, acho que entraríamos em colapso.
– Na verdade, entrou em colapso. Mas o tempo não teve nada a ver com isso. Não se pode basear uma civilização em algo não confiável. Um cientista chamado Einstein, que viveu no século XX, se não me engano, provou que o tempo é relativo. Como seria possível viver baseando-se em algo que não é uniforme? – Aquele estranho sorriso nunca abandonava o rosto do estranho.
A última resposta me fez pensar mais uma vez. E antes que ele pudesse continuar, perguntei:
– O que você quer dizer com “entrou em colapso”? Você não está falando da raça humana, está? E por que você fala do século XX como algo longínquo?
– Já que você perguntou, eu respondo. De fato, eu falo da raça humana, aquela da qual você é proveniente. Ela entrou em colapso em algum ponto do século XXI. Mas era esperado, dado o nível de desenvolvimento de vocês. – Estas palavras foram ditas com ar de desdém, o que me deixou um pouco desconfortável e ofendido. Ele fez uma pausa, e continuou: – Este deserto é o que restou do planeta terra, eu acho.
Naquele momento, eu não podia acreditar no que eu estava ouvindo. Eu estava mais curioso para saber sobre o fim da raça humana do que como eu havia parado ali. E prossegui:
– Como a raça humana foi extinta? Guerra nuclear?
– Longe disso. – Ele respondeu, agora rindo – É verdade que uma guerra nuclear dizimou parte da população mundial, mas não foi o suficiente para destruir o planeta. Por mais destruído que ele já estivesse antes da guerra, ela serviu apenas para esgotar o arsenal e eliminar grande parte da população. Não tenho muitos detalhes em mente, mas sei que, no final, a população restante acabou se matando com paus e pedras. – Quando terminou a frase, foi a primeira vez que vi seu semblante mudar. – Irônico, não acha? Grande evolução tecnológica, para no final matarem-se uns aos outros usando os artefatos que seus ancestrais usavam quando ainda eram quase macacos. Revertere ad locum tuum.
– E como vocês estão aqui? Vocês não são humanos, são?
– Não exatamente. Somos parecidos com vocês, mas, desculpe-me a comparação, somos mais evoluídos.
– O que os tornam mais evoluídos? O fato de não terem estruturas de poder? – Devo admitir que senti-me ofendido com a comparação, por mais que não fosse a intenção dele.
– Este é um dos pontos, mas não é o único. Nós chegamos a um estágio aonde não precisamos de líderes. Somos auto-suficientes. Pra que preciso de alguém dizendo o que fazer, ou que tome decisões que ele julgue ser melhor, se todos nós sabemos exatamente o que é melhor para todos nós? É redundante e passível de conflitos. Além disso, somos capazes de viver somente com aquilo que precisamos, nada mais, nada menos. E também produzimos tudo o que precisamos. Se alguém precisa de algo que não tem, alguém com certeza ceder-lhe-á, já que podemos fazer outro. Com isso cortamos também a redundância da moeda, tão comum em sua época e também causadora de conflitos. Mas observe que também não fazemos as coisas na base da troca. Nós simplesmente damos o que os outros precisam. Você, por exemplo, precisava de comida e bebida.
– Entendo o seu ponto, mas, e se alguém quiser mais do que precisa? Não existe nenhum mecanismo que impeça isso?
– Pra que alguém iria querer mais do que precisa? Não ostentamos aqui. Pelo contrário, a pessoa que produz mais do que precisa logo se desfaz de tudo, mesmo que tenha que jogar no lixo. É um pouco, digamos, fora do comum, a pessoa ter muita coisa. Como todos tem o que precisam, ninguém rouba.
– Isto é uma utopia. Não consigo acreditar que uma sociedade consiga durar muito tempo assim, sem líderes, sem posses.
– Considerando que você viveu toda sua vida em uma sociedade assim, realmente é difícil acreditar que não é possível. Eu me coloco na mesma posição, até hoje não entendo porque as pessoas precisavam de tanto, de líderes, de entidades para adorar. A divergência de opiniões causa conflitos.
– Acho que a falta de coisas para fazer causa conflitos.
– Nunca ficamos sem ter o que fazer. Normalmente estamos ocupados cuidando de nossos filhos, esposas e esposos. Passamos nosso tempo conversando, convivendo.
– Isso ainda me soa utópico. Acho que a minha civilização não teria entrado em colapso se fossemos assim.
– Não teria, mas para os humanos é impossível viver assim. Não existe qualquer mecanismo dentro de vocês que iniba a agressão ritualizada. Sem isso, não há como garantir a preservação da espécie. – Ele fez uma pausa, e continuou: – Agora você precisa ir.
– Como preciso ir? Pensei que vocês eram solidários! – Perguntei quase gritando, e sentindo uma leve tristeza por ter que deixar aquele lugar.
– Isso acontece com alguma freqüência por aqui. Viajantes da sua era aparecem por aqui. Alguma anomalia no espaço-tempo. No começo, tínhamos a esperança que, ao voltar, talvez vocês pudessem fazer algo pela sua civilização e evitar sua autodestruição, mas depois de algumas centenas de visitas, desistimos. Só espero que você não sofra.

Ficamos um longo tempo nos olhando. Eu ainda não conseguia acreditar que pudesse existir uma sociedade utópica como aquela. Por um momento, fiquei sem palavras, sem perguntas. Limitei-me a olhar as pessoas à minha volta, sempre sorrindo, como se a vida fosse simplesmente maravilhosa; na verdade, é bem provável que a vida daquelas pessoas fosse maravilhosa. Eu era um estranho naquele lugar, o animal, a besta irracional sedenta por posses e por sangue.

Continuei sentado no banco, enquanto o estranho sem-nome se afastava. Ele já sabia que eu sumiria em alguns instantes, mas, apesar do que ele disse, eu ainda tinha alguma esperança que algo falhasse e pudesse continuar ali, vivendo aquele sonho utópico. À medida que aquela visão foi sumindo, a cidade desaparecendo diante dos meus olhos, encontrei-me de volta ao meu habitat, à minha selva, à minha jaula. Foi então que eu percebi que aquilo era realmente uma utopia, um sonho distante. Foi então que eu percebi que não pode existir tal lugar.
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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

Mensagem por Tânia Souza em Seg 5 Abr 2010 - 2:34

Aroma de estrelas
Por Tânia Souza


Tudo é cinza e frio. Meus passos ecoam neste imenso deserto. Por onde olho, vejo apenas vastidão de pedras e cavernas. Em uma delas, resido. Não se trata de uma caverna qualquer. Foi adaptada por mim. Contém o que necessito para permanecer em ordem e funcionando. Aqui, os dias e as noites são longos. Não se ouve o lamento de animais, não se ouve sons, ruídos, não se vê movimento algum além de poeira cósmica ocasional. Estamos no planeta Sunriand. Na verdade, um planetóide de ricos minérios, mas instável para a sobrevivência humana. Não há água em Sunriand. Não há comida. Não há vida. Apenas eu e a carcaça de outras máquinas que deixaram de funcionar.

Um nome... Sim, eu tive um nome, mas ele se esvai com outras lembranças e não consigo buscá-lo nos desenhos do passado. Outrora fui cidadã, hoje sou propriedade do estado, sou uma prisioneira. Estou cumprindo pena em Sunriand. Não há absolutamente ninguém aqui. Teoricamente, também não estou aqui.

A Liga da Moral me condenou a cinco anos de trabalho nas minas deste planetóide deserto. O corpo que fora meu permanece nos laboratórios da LM. Entretanto, minha mente fervilha. Não sei quanto tempo posso resistir. Inicialmente eu não estava só, mas poucos sobreviveram à desolação. A solidão tem um efeito devastador na alma humana. Entretanto, a cada momento que a sombra toma conta desse imenso deserto num simulacro de noite, meus sonhos revivem. Quando a claridade vem, trabalho sem cansaço. Ainda que eu não quisesse, a máquina está ligada a mim e não posso combatê-la. Minha pena é a solidão.

Meus olhos não me reconhecem neste corpo metálico, sensações físicas como o calor, cansaço e fome ainda estão na minha mente, mas meu corpo recebe o que necessita. Nomearam-me 1WR2. Se tenho um nome, é este. Apenas uma idéia resistindo dentro do frio metal.

A tecnologia permite ao meu cérebro permanecer aqui. Estou conectada a esta máquina e devo preservá-la. Minha morte não compensa para nossa equilibrada economia e meus óvulos perfeitos estão preservados para reprodução. Uma saúde resistente a moléstias e pestes foi o que me salvou da Colônia de Reaproveitamento de Material Orgânico.

Meu crime? Meu crime não prescreve dado que insisto no erro.

Meus algozes insistem que tirei uma vida. Que perverti um perfeito servo da Ordem e da Lei. Daniel está morto, mas sei que dei vida a ele. Lutou contra gigantes disfarçados em moinhos. Conhece O Cavaleiro de La Mancha? Daniel não conhecia, os nascidos na Nova Ordem tampouco. Conheci Dom Quixote através dos meus pais, ambos amavam a literatura como uma das grandes conquistas da humanidade. Traziam esse amor de um tempo distante, antes da Liga da Moral ser o centro do governo.

Posso ainda ouvir a voz de minha mãe contando-me sobre os gigantes, descrevendo Dulcinéia de Toboso. Na nossa pequena ilha familiar, ler não era crime. Apenas uma aventura a ser escondida de todos. Decorei cada palavra do livro amarelado. Com o passar do tempo, o mundo se transformava cada vez mais rápido. A tecnologia crescia vertiginosamente junto a insana busca pelo poder.

Nas últimas guerras, as bombas não destruíram apenas a matéria. Em meio à miséria, a fome, as doenças, toda a humanidade parecia perversa. Os homens vagavam piores que feras. Entretanto, as cidades sobreviventes se reorganizaram sob o julgo pesado da LM. Por algum tempo, a ordem e a lei foram importantes para estabelecer a nova sociedade, mas então começaram as proibições. As perseguições. Velha história que não se cansa de repetir! Tudo se converteu em pecado, toda manifestação cultural se converteu em crime. Computadores, músicas, games e livros foram proibidos. Toda ficção estava proibida, apenas a tecnologia a serviço da lógica e da sobrevivência permanecia de forma controlada. No entanto, eu já o sabia cada vocábulo, cada suspiro, Dom Quixote estava entranhado em mim.

Quando meus pais foram levados a Colônia de Reaproveitamento de Material Orgânico, fui incorporada aos grupos de estudantes que reconstruiriam a nação. Trabalhar na Colônia de Repovoamento foi um orgulho para mim. Acreditei que contribuiria para o futuro do planeta. Ah, Daniel, eu o amei. Certa noite, sob um céu quase oculto em nevoas, a lua insistia em enviar alguns tímidos raios. Contei a ele a saga do cavaleiro da triste figura. Daniel era um cientista, cresceu sob o julgo da Lei. Mas era jovem e trazia em si a essência da humanidade. Apaixonou-se pela história, pedia-me sempre que a repetisse. Discutíamos a vontade, a ordem, a paixão. Essa mesma paixão pela liberdade o contagiou. Contestar, combater.

Uma das normas da Colônia de Repovoamento era a seleção dos embriões promissores frente à destruição dos imperfeitos. Como questionar o equilíbrio que a Colônia de Repovoamento estabelecera? Daniel questionou, foi além, tentando destruir parte do laboratório, divulgou a crueldade oculta sob o véu de ordem. Muitos se chocaram e foi preciso readaptar as normas, mas ele terminou reaproveitado e eu condenada por levá-lo a exaltação. Literatura. Eis meu crime.

Mas tudo isso consta nos registros. O que não está nos registros são meus dias aqui em Sunriand. Não é fácil ser uma criminosa nestes dias. Opções: Colônia de readaptação de material orgânico. Trabalho forçado. Reconstrução das áreas destruídas. E experiências como a minha, ainda pioneiras devido à crueldade da punição. Mas em nome da ciência e do lucro, é permitido. Meu corpo pertence à LM. Quiseram eles que minha mente também o fosse, incorporada a esta máquina que comando e com a qual diariamente extraio desse planetóide insípido um metal precioso. Um trabalho que necessita do conhecimento humano somado a força e pericia de um robô. Mas meus pensamentos são livres. Quando vago olhando as estrelas talvez meu corpo chore. Não há tecnologia que combata minha dor. Aqui, sou revestida do mais resistente material. Juntas perfeitas em ordenado funcionamento, aparência imitando a forma humana, as primeiras experiências que romperam esse limite foram desastrosas. Sou um cérebro prisioneiro no corpo de um robô, um robô feminino. Mas meus sonhos são livres, não podem me controlar.

Em satélites e planetas desse imenso universo, outras cumprem penas como a minha. Mulheres cujos corpos já não lhe pertencem, fadadas a solidão e ao vazio. Mentes que ousaram contestar a LM. Mentes que de alguma forma, sobrevivem. Que não estão sob controle. Olha para as estrelas e minhas palavras captam a dor de cada uma delas.

Estou aqui há mais de um ano. Sete vezes a nave de recolhimento esteve aqui para ser carregada com os minerais e pedras que coletei. Sete vezes olhei para um rosto humano. Um rosto curioso frente ao metal branco que reveste as engrenagens dessa máquina que me contém. Minha face inexpressiva oculta meus sentimentos, mas para nosso grande espanto, meu e dele, um robô pode chorar. Uma lágrima escura, negra como o óleo que percorre minhas engrenagens desliza no metal pálido quando o vejo. Uma lágrima capaz de romper barreiras inimagináveis.

Junto às fortunas desse solo, retornam a terra as minhas maiores riquezas e a cada dia, aumenta o número de pessoas interessadas em divulgá-las. Descobri junto aos mais preciosos metais e minérios, uma rocha flexível. Separada do veio original, ela endurece gradualmente. Nas noites insones, é nela que escrevo. Conto minha saga, reconto historias há muito não ouvidas. Invento universos, registro o aroma das estrelas. Ouso poesias. Ele, o meu carcereiro se encarrega de escondê-las. De divulgá-las. Assim, preservo minha sanidade e compartilho a saga de um povo perdido no espaço. Perdido de si mesmo. Escrevo e as palavras estão eternamente gravadas na pedra e na mente dos que as lêem.

Caminho sem pressa neste deserto cinza e frio, perfuro rochas e mecanicamente, organizo a riqueza para meu antigo lar. Até quando resistirei consiste em um mistério, para mim e para os cientistas que controlam esse experimento. A um sinal deles, minha mente estará calada, mas enquanto houver vida, haverá verbo e uma história para se contar.

Estou nas minas de Sunriand há mais de um ano. E escrevo. Em algum lugar, em um planeta quase esquecido por mim, alguns lêem as palavras de um robô que chora e reaprendem a sonhar.

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Re: DESAFIO LITERÁRIO - FICÇÃO CIENTÍFICA

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