Entrevista

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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Sex 27 Nov 2009 - 21:10

seguidorlovecraft escreveu:Gostei muito da tua resposta, Henry. Espero que tenha sido fácil responder.
Eu acho ainda que algumas editoras pagam e muito bem certas livrarias (Cultura, Saraiva) para expôr esses livros da forma de como o amigo acertadamente citou (uma espécie de "jabá"). E me sinto muito mal com isso. É como se o brasileiro (principalmente aquele fora do eixo) fosse 'feito' única e exclusivamente para pagar altas taxas de impostos, sem nenhum direito a mais, sem espaço, sem... sei lá.

Abraços
LNN

É, há alguns anos rolou na internet e na midia em geral, a noticia de que a livraria internacional AMAZON recebia grana das editoras para colocar certos livros na primeira página do site e na lista de mais vendidos enviada por e-mail para os clientes. Então... O jabá existe sim, de fato. Mas é uma rede danada de interesses, onde o menos priorizado, com certeza, é o do escritor apesar de que este acaba ganhando tmbm.
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Re: Entrevista

Mensagem por seguidorlovecraft em Sex 27 Nov 2009 - 21:11

O penúltimo e o último parágrafo que o Henry escreveu me fez lembrar logo no início do ano, ou no final do ano passado, que o programa 'fantástico' veio parar na fronteira do estado do RS (em que eu moro) para mostrar um pouco os costumes locais daqui.
Pois bem. Até aí tudo bem. Mas o problema vem agora: os caras são tão intransigentes, que exigiram o pessoal de uma localidade em específico (não lembro qual) dizer que é rica na produção do fumo, quando na verdade só tinha uma terrinha qualquer que planta fumo, uma família, pobre, de plantadores. E se o pessoal da cidade não falasse isso, simplesmente não apareceria na globo!
(Nem merece letra maiúscula)
Ridículo! Mas é a forma de como as coisas funcionam. Enganando o povo (tal qual a política), enquanto ganha prêmios e mais prêmios por novelas cada vez piores. Coloca uma "Pedra Sobre Pedra" contra essa "Caminhos da Índia", para ver quem vence - a primeira, claro. Ou, mais recente, "Vamp" ou "A Viagem" contra essa atual novela das oito, que nem sei o nome - claro que as duas primeiras. (Mas não! Novela é novela, não importa quanto tempo dure, tal qual a "Negócio da China", que terminou muito ruim.)

Boa noite
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Re: Entrevista

Mensagem por seguidorlovecraft em Sex 27 Nov 2009 - 21:29

Henry Evaristo escreveu:
seguidorlovecraft escreveu:Gostei muito da tua resposta, Henry. Espero que tenha sido fácil responder.
Eu acho ainda que algumas editoras pagam e muito bem certas livrarias (Cultura, Saraiva) para expôr esses livros da forma de como o amigo acertadamente citou (uma espécie de "jabá"). E me sinto muito mal com isso. É como se o brasileiro (principalmente aquele fora do eixo) fosse 'feito' única e exclusivamente para pagar altas taxas de impostos, sem nenhum direito a mais, sem espaço, sem... sei lá.

Abraços
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É, há alguns anos rolou na internet e na midia em geral, a noticia de que a livraria internacional AMAZON recebia grana das editoras para colocar certos livros na primeira página do site e na lista de mais vendidos enviada por e-mail para os clientes. Então... O jabá existe sim, de fato. Mas é uma rede danada de interesses, onde o menos priorizado, com certeza, é o do escritor apesar de que este acaba ganhando tmbm.

Então não é só minha impressão. Ocorre de verdade!
Caramba. Bem que dizem que o mundo é dos vivos.

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Re: Entrevista

Mensagem por Poleto em Seg 30 Nov 2009 - 9:35

Pra isso, existem dois ditados muito usados no mundo corporativo:
"O mundo é dos sujos." e "A corda sempre arrebenta do lado mais otário.".

É a teoria da evlução, de Darwin, adaptada aos meios corporativos. Ou você se adapta, ou será exinto.
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Re: Entrevista

Mensagem por Flávio de Souza em Seg 30 Nov 2009 - 13:56

Inclusive, quando eu estava batendo um papo com o Léo sobre as Olimpíadas, cheguei a comentar algo parecido com que o Poleto falou...
O mundo é isso aí mesmo...triste e feio, mas é assim...
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Re: Entrevista

Mensagem por Celly Borges em Seg 30 Nov 2009 - 14:10

Posso fazer uma perguntaaaa??? What a Face

Henry, quais livros vc tem vergonha de ter lido, não conta pra ninguém, mas agora chegou o seu momento, conte-nos! Livre sua alma destes pecados!
E não esqueça de dizer o porquê!
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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Seg 30 Nov 2009 - 15:03

Celly Borges escreveu:Posso fazer uma perguntaaaa??? What a Face

Henry, quais livros vc tem vergonha de ter lido, não conta pra ninguém, mas agora chegou o seu momento, conte-nos! Livre sua alma destes pecados!
E não esqueça de dizer o porquê!

O Vampiro Lestat. Porque ele tinha a capa...cor de rosa! Ainda bem que o cachorro o comeu.

Porcos com Asas. Porque não tem nada daquilo que eu esperava que tivesse...

A Hora das Bruxas 1 & 2. Por que passei uns dois anos lendo aqueles dois calhamaços e não vi bruxaria nenhuma; só letras, letras, e enrolação! Rrrssrsr!

A Cozinha Maravilhosa de Ofélia. Porque nunca consegui que ninguém fizesse pra mim nenhuma das receitas que tem lá!


Acho que não tem mais nenhum. Sempre que pego um livro pra ler é por estrito interesse. Então dificilmente pego para ler um livro de que me envergonhe depois.

Ah, tem mais um, mas não me envergonhei do livro e sim de mim mesmo. A Rebelião de Lúcifer, por que li duas vezes e não entendi nada! Rrssrrs
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Re: Entrevista

Mensagem por seguidorlovecraft em Ter 1 Dez 2009 - 10:40

Admito que desconheço esse A Rebelião de Lúcifer. É de qual autor, afinal, Henry?
Enfim, sobre os livros citados, eu - infelizmente - não consigo ler (leia-se isso como: não desce redondo) livros que eu não tenha do meu interesse. Pego geralmente as explicações que Lovecraft teceu no ensaio de não-ficção e tento encontrar, na maioria das vezes em sebo. Se adquiro livros, é porque ou eu gosto ou está dentro da nossa Lit.Fan.; perco e muito em não ler (todas) as histórias de Machado de Assis, ou Lima Barreto, assim vai - o problema sou eu, mas esse problema é motivado pela falta de motivação que tive quando no tempo de colégio (público), quando éramos obrigados a ler e fazer resumos do livro lido. Não deve-se obrigar a criança ler, deve-se incentivá-la, sem a necessidade de fazer resumos. Então é preciso achar um meio para prendê-la na leitura, sem a sensação de obrigatoriedade. E eu tive isso.

Se me fizessem essa pergunta, eu responderia citando o seguinte livro: A NONA CONFIGURAÇÃO
Eu lembro que um dos amigos leu esse livro do William Peter Blatty, e parece que agradou a leitura. Então resolvi alugar esse livro pra tirar a prova dos nove. Não gostei. De fatto, Will é um autor bastante competente, não à toa escreveu o sucesso "O Exorcista" (preciso ler esse livro). Mas, a meu ver, não foi uma leitura boa. Tenho comigo que escrever uma história de horror/terror, distúrbios mentais, não precisa usar de um palavreado de baixo calão, acho tremendamente dispensável, e esse "A Nona..." está cheio delas.
Entretanto, percebi que essa história sobressai-se com alguns fragmentos interessantes: (citando)

1) A ideia original, "Twinkle, Twinkle, Killer Kane" surtiu algum efeito. Nesse caso, ponto para Will.
2) "Se pudéssemos limpar o sangue, esfregando bem, você acha que seria possível descobrirmos onde escondemos nossas almas?"
3) "Não creio que o mal nasça da loucura: creio que a loucura nasce do mal".
4) Não sei - ... - Penso em doenças, terremotos, guerras - ... - Morte dolorosa. Morte de crianças. Crianças com câncer. Se tudo isso é simplesmente parte de nosso meio ambiente, então por que todas essas coisas nos assustam tanto? Por que haveríamos de pensar nelas como más a não ser que... fôssemos programados - ... - para algum outro... lugar! - ... - Talvez a consciência não seja mais do que nossa lenbrança de como as coisas costumavam ser. Mas simplesmente suponha que não evoluímos, que na realidade temos andado caminhando para trás..."

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Re: Entrevista

Mensagem por Poleto em Ter 1 Dez 2009 - 12:34

Minha vez de fazer a pergunta:

Henry, na sua opinião, quais foram as principais mudanças - sejam estilisticas, ambientais, conceituais, etc. - que ocorreram ao longo dos tempos na Literatura Fantástica, em especial, na de terror? Se fosse para fazer uma comparação, você diria que a Literatura de terror de hoje é pior do que a de antigamente?
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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 14:52

Poleto escreveu:Minha vez de fazer a pergunta:

Henry, na sua opinião, quais foram as principais mudanças - sejam estilisticas, ambientais, conceituais, etc. - que ocorreram ao longo dos tempos na Literatura Fantástica, em especial, na de terror? Se fosse para fazer uma comparação, você diria que a Literatura de terror de hoje é pior do que a de antigamente?

Basta pensarmos na literatura de autores como Horace Walpole, Emily Brontë, Ann Radcliff, Mary Shelley, Edgar Poe, Bram Stoker, Lovecraft, Algenon Blackwood, para sentirmos esse abismo imensurável que separa a litfan clássica da contemporânea. Claro que a qualidade da litfan mudou para pior. No século XIX e até nas primeiras décadas do século XX havia, nas principais regiões do mundo, uma atmosfera de racionalismo e cientificismo que envolvia todos os produtores de cultura, os formadores de opinião, os intelectuais, estudiosos, pesquisadores, em fim, todos aqueles que lidavam com alguma forma de conhecimento. Nesse tempo, Júlio Verne despendia horas, dias, semanas, meses, estudando sobre um único aspecto geográfico, geológico, físico ou químico de alguma de suas obras somente para não correr o risco de falar bobagens em seu texto. E para isso, ele tomava aulas com professores das áreas específicas que lhe interessavam. Como ele, diversos outros autores deste período prezavam pela erudição de seus tabalhos. Ora, a mídia e a academia estavam de olho no que esses malucos fantasiosos produziam, para falar mal, para fazer chacota e para confirmar suas teses de que litfan era, de fato, literatura menor. Esse sentimento de necessidade em elevar o nível para ser levado a sério, misturado ao contexto histórico em que se inseria, por exemplo, a literatura gótica; em meio ao desenvolvimento científico das disciplinas, as novas descobertas em países exóticos e no ramo da medicina, da física, da química, da biologia, da antropologia e de dezenas de outras áreas de conhecimento, fazia com que os autores tratassem de elaborar cada vez com mais afinco suas obras. Eram todos homens muito cultos, estudiosos, reflexivos.

E havia muito espaço para a reflexão sobretudo na europa, em Londres, em Paris. Havia os salões de leitura, onde homens de letras e de sabedoria se reuniam para discutir, fumar charutos e refletir sobre assuntos exóticos, sobre os pigmeus, sobre os nômades, sobre os mistérios das pirâmides, sobre as possibilidades do magnetismo animal, do ocultismo, da mentenpsicose, da prestidigitação. Tudo isso parece mais um contexto cinematográfico mas não é! A Europa do século XVIII, XIX início do XX não era só assim, mas era assim também!

E nos EUA não era muito diferente! Apesar de que os maiores escritores de litfan da história são norte-americanos, mas todos eram profundamente influenciados pelo contexto europeu, sobretudo o inglês e o francês. E também essa revolução mental ocorria fortemente em solo americano. Ora, França e Inglaterra enviavam suas influencias para todo o mundo e até no Brasil tivemos episódios profundamente influenciados por esta efervescência social, política e cultural européia.

Acho que nem preciso mais dizer se a litfan clássica era melhor que a atual, né!? Em nossos tempos, não há mais esse contexto europeu. Não há mais o estarrecimento diante das coisas da ciência que levou pessoas como Bram Stoker e Mary Shelley a escreverem seus romances clássicos. Não há mais o neogoticismo dentro da concepção artística que era moda nos séculos passados. E sobretudo não há mais a preocupação da auto-afirmação da litfan como gênero culto e elevado tanto quanto os outros. Com o passar do tempo, a litfan parece ter se acomodado com o lugar que lhe relegaram: o da literatura pop, simples, apelando para explicações inverossímeis por pura falta de pesquisa e dedicação de seus autores. E pior: sendo elaborada dentro de linguagens simplórias demais afim de atingir o maior numero de leitores possível para poder vender cada vez mais e mais. Foi-se o tempo em que autores famosos da litfan internacional morriam pobres, doentes e loucos!

Claro, tudo isso pode ser encarado como papo de velho: "Ah, antigamente é que era bom!". E o fato de que os escritores consagrados de litfan estão milionários pode ser encarado como uma conquista. Ok! Mas tmbm é fato que essa conquista foi obtida muito mais com o prejuízo da qualidade literária em favor do atendimento às tendências de mercado. Ora, ninguém quer mais ter que comprar um dicionário junto com o livro de terror que vai ler, rrrrs...

Existem livros excelentes dos anos 50, 60, 70 e 80. Grandes clássicos como Invasores de Corpos, Vampiros de Almas, O Exorcista, são livros excelentes da época pós-moderna. Me parece mesmo que o grande problema da qualidade está na nossa época, nesta atual em que vivemos. Mas isso também não quer dizer que toda literatura contemporânea é automaticamente ruim. Acho que é uma questão quantitativa: em termos gerais, a literatura clássica é melhor do que a atual por que mais bem feita, mais bem engendrada, mais profunda e é tudo isso por que é menos comprometida com o lucro. Não é feita para as massas, é feita para quem quiser gostar dela.

Hoje em dia não há mais espaço na mídia para artes setorizadas. Tudo tem que agradar a todos. Os especialistas e os experimentalistas estão banidos! E ficaram os generalistas, que escrevem para as massas e do jeito que elas querem. Em breve teremos livros escritos em internetês, vcs vão ver! Rrrssrrs...

Em termos de estética, acho que podemos observar como os castelos assombrados da literatura gótica foram trocados pelos apartamentos e casas assombradas; as mocinhas inocentes que Drácula mordia, foram substituídas por garotas de índole duvidosa disfarçada de liberalidade sexual; os vampiros diabólicos do século XIX deram lugar aos rapazinhos alegres que tomam sangue por acidente e morrem de nojo de ter que fazer isso, rssrsr, monstros homicidas que se escondem em pântanos perderam a vez para geladeiras assassinas que se escondem em cozinhas, camisinhas psicopatas que mutilam o usuário e zumbis que falam ao celular enquanto curtem um som.

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Re: Entrevista

Mensagem por seguidorlovecraft em Ter 1 Dez 2009 - 15:28

Amigo Henry, você está absolutamente certo.
E nisso tudo o que impera é a "padronização". Eu quero ver uma história tal qual Drácula que algum escritor escreva e faça sucesso quanto esses negócios de "Lua Nova Crescente no Crepúsculo dos Vampiros que não bebem sangue e brilham ao sol". Aliás, já fizeram merd* com Drácula: veja o sítio abaixo. Eu fui há alguns anos n'uma palestra em que ela explicou: cortou 80% da história. (e ainza zombou dizendo que xingaria Bram Stocker se lhe apresentasse essa história...)
http://www.scipione.com.br/mostra_livro_paradidatico.asp?id_livro=243&bt=2

Bem... se me permitir falar, acho que outro fator que influencia isso são os "tempos modernos" (sem fazer referência ao filme). Quem, hodierno, vai querer ler uma história que se passa n'um castelo, quando temos histórias em que o horror se passa em um supermercado ou posto de gasolina? E ainda vou escrever uma história que envolverá castelo. Podem esperar.

Abraços
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Re: Entrevista

Mensagem por Poleto em Ter 1 Dez 2009 - 16:12

Embora cada usuário tenha direito a fazer uma pergunta, vou deixar outra aqui, não direcionada diretamente a você, mas como um questionamento a todos.
Não estaria a literatura de terror atual seguindo como um reflexo do seu tempo?
Vejamos por exemplo, "Frankstein", de Mary Shelley: existe embutido ali uma profunda preocupação com a evolução da ciência, e que está ligado ao contexto histórico de quando o romance foi escrito. O próprio romance gótico surgiu desta forma - segundo alguns estudiosos, que fique claro -, representando uma volta ao passado feudal, provocada pela desilusão com os ideais racionalistas e pela tomada de consciência individual frente aos dilemas culturais que surgiram na Inglaterra a partir da metade final do século XVIII, há quem diga ainda que a proposta subjacente seria o retorno a uma época de sonhos e contra o materialismo burguês.
Lembrando que nem todos as histórias de terror dos séculos passados são, necessariamente, literárias. Algumas são pura e simplesmente entretenimento. E nem por isso ruins.

Nos dias de hoje, temos como maior expoente do terror Stephen King (deixando de lado as críticas). Um de seus livros, "Celular" (o tal aonde zumbis falam ao celular enquanto ouvem música), pode ser encarado como uma crítica à dependência excessiva das pessoas para com os celulares, entre outras coisas (Ver esta crítica sobre o livro: [url=Celular]http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1808013-EI6622,00.html[/url]).

No lado mais literário, temos Peter Straub, que abriu mão da vendagem em troca de poder explorar estilo e técnicas não convencionais. Straub é um cara que escreve terror literário, por assim dizer. E é extremamente bem sucedido nesta empreitada.

É claro que existem centenas de escritores que não dominam o idioma no qual escrevem, não entendem o conceito do gênero terror, e ainda assim vendem milhares de livros. Mas, tenho certeza que no século XIX também haviam milhares de escritores iguaizinhos aos que temos hoje.

Já na questão da linguagem usada, eu acho que valeria a pena revermos um pouco este ponto. Deve-se buscar um entendimento sobre a forma escrita usada na época em que cada história foi escrita. Por quê? Porque se você pegar um escritor como Machado de Assis, por exemplo, vai achar fantástico ele usar o português corretíssimo e reclamar que ninguém fala nem escreve assim hoje em dia. Porém, deve-se levar em conta que na época em que foi escrito, aquilo ali provavelmente era a forma na qual as pessoas escreviam e falavam. O mesmo vale para H. P. Lovecrat, Poe, e tantos outros, que, quando lemos hoje, vemos uma linguagem muito mais formal, mas que, à época, provavelmente era a linguagem predominante e que talvez nem fosse considerada formal. É bem provável que eles escrevessem, para a época, da mesma forma que Stephen King escreve atualmente.

Eu achei a resposta do Henry duca! Totalmente autêntica e precisa. Mas, ao ler e reler, levantei estes questionamentos, que não são, de forma alguma, uma ofensa ao nosso querido mestre! Wink
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Re: Entrevista

Mensagem por seguidorlovecraft em Ter 1 Dez 2009 - 16:39

Respondendo a sua pergunta, segue. Mas o que é o reflexo do nosso tempo, por exemplo? Dar notícias via twitter (que me recuso a ter), mensagens de celular mais modernas e com fontes especiais, escutar músicas em ipods?! Bem... explorar esses detalhes é complicado.
Ainda estou escrevendo a novela, aquela que ano que vem pretendo publicar. Escrevo nela meu personagem que odeia celular, simplesmente não o usa e não o tem. Na história tem o aparelho gps, mas quem usa é o guia dele. Será que, seguindo a fórmula contrária de King, expressando a ideia do repúdio à 'tecnologia consumista' (ainda que hoje eu tenha vontado a ter um celular, passei muito tempo sem, e considero consumista), e não simplesmente mostrando como está o reflexo do nosso tempo em zumbis, estou fazendo certo?!
Enfim, é algo para se pensar, mesmo. Afinal, as notícias vão na velocidade da luz, basta um toque (clic) no mouse que tudo nos é apresentado na tela do computador.
E isso rende muito pano para manga para pesquisas nesse campo. Já nem sei mais se é tecnológico, social ou humanístico. O limiar entre os três é muito tênue.
Belo questionamento, Poleto.
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Re: Entrevista

Mensagem por Poleto em Ter 1 Dez 2009 - 16:53

seguidorlovecraft escreveu:Respondendo a sua pergunta, segue. Mas o que é o reflexo do nosso tempo, por exemplo? Dar notícias via twitter (que me recuso a ter), mensagens de celular mais modernas e com fontes especiais, escutar músicas em ipods?! Bem... explorar esses detalhes é complicado.
Ainda estou escrevendo a novela, aquela que ano que vem pretendo publicar. Escrevo nela meu personagem que odeia celular, simplesmente não o usa e não o tem. Na história tem o aparelho gps, mas quem usa é o guia dele. Será que, seguindo a fórmula contrária de King, expressando a ideia do repúdio à 'tecnologia consumista' (ainda que hoje eu tenha vontado a ter um celular, passei muito tempo sem, e considero consumista), e não simplesmente mostrando como está o reflexo do nosso tempo em zumbis, estou fazendo certo?!
Enfim, é algo para se pensar, mesmo. Afinal, as notícias vão na velocidade da luz, basta um toque (clic) no mouse que tudo nos é apresentado na tela do computador.
E isso rende muito pano para manga para pesquisas nesse campo. Já nem sei mais se é tecnológico, social ou humanístico. O limiar entre os três é muito tênue.
Belo questionamento, Poleto.

Diz Stephen King que ele detesta celulares e não tem um. Mas, isso é declaração dele. Vai saber...
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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 17:23

Poleto escreveu:Embora cada usuário tenha direito a fazer uma pergunta, vou deixar outra aqui, não direcionada diretamente a você, mas como um questionamento a todos.
Não estaria a literatura de terror atual seguindo como um reflexo do seu tempo?
Vejamos por exemplo, "Frankstein", de Mary Shelley: existe embutido ali uma profunda preocupação com a evolução da ciência, e que está ligado ao contexto histórico de quando o romance foi escrito. O próprio romance gótico surgiu desta forma - segundo alguns estudiosos, que fique claro -, representando uma volta ao passado feudal, provocada pela desilusão com os ideais racionalistas e pela tomada de consciência individual frente aos dilemas culturais que surgiram na Inglaterra a partir da metade final do século XVIII, há quem diga ainda que a proposta subjacente seria o retorno a uma época de sonhos e contra o materialismo burguês.
Lembrando que nem todos as histórias de terror dos séculos passados são, necessariamente, literárias. Algumas são pura e simplesmente entretenimento. E nem por isso ruins.

Nos dias de hoje, temos como maior expoente do terror Stephen King (deixando de lado as críticas). Um de seus livros, "Celular" (o tal aonde zumbis falam ao celular enquanto ouvem música), pode ser encarado como uma crítica à dependência excessiva das pessoas para com os celulares, entre outras coisas (Ver esta crítica sobre o livro: [url=Celular]http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1808013-EI6622,00.html[/url]).

No lado mais literário, temos Peter Straub, que abriu mão da vendagem em troca de poder explorar estilo e técnicas não convencionais. Straub é um cara que escreve terror literário, por assim dizer. E é extremamente bem sucedido nesta empreitada.

É claro que existem centenas de escritores que não dominam o idioma no qual escrevem, não entendem o conceito do gênero terror, e ainda assim vendem milhares de livros. Mas, tenho certeza que no século XIX também haviam milhares de escritores iguaizinhos aos que temos hoje.

Já na questão da linguagem usada, eu acho que valeria a pena revermos um pouco este ponto. Deve-se buscar um entendimento sobre a forma escrita usada na época em que cada história foi escrita. Por quê? Porque se você pegar um escritor como Machado de Assis, por exemplo, vai achar fantástico ele usar o português corretíssimo e reclamar que ninguém fala nem escreve assim hoje em dia. Porém, deve-se levar em conta que na época em que foi escrito, aquilo ali provavelmente era a forma na qual as pessoas escreviam e falavam. O mesmo vale para H. P. Lovecrat, Poe, e tantos outros, que, quando lemos hoje, vemos uma linguagem muito mais formal, mas que, à época, provavelmente era a linguagem predominante e que talvez nem fosse considerada formal. É bem provável que eles escrevessem, para a época, da mesma forma que Stephen King escreve atualmente.

Eu achei a resposta do Henry duca! Totalmente autêntica e precisa. Mas, ao ler e reler, levantei estes questionamentos, que não são, de forma alguma, uma ofensa ao nosso querido mestre! Wink


É, com certeza toda a cultura do homem é fruto de seu tempo e de todas as condições que o ambiente lhe impõem em cada momento de sua história, desde a alimentação até o ar que ele respira. A literatura e especificamente a litfan não poderia ser diferente. Se Mary Shelley se estarrecia com a descoberta da energia, Stephen King se incomoda com o uso voraz que as pessoas hoje fazem do celular, mas isso não justifica nem explica a pobreza das ideias e das escritas.

A linguagem literária nunca foi a linguagem usada nas ruas. Lovecraft não escrevia como falava, de forma nenhuma! Por que ele, como outros de seu tempo, se preocupavam gravemente em sempre elevar o nível de sua literatura. É por isso que, por exemplo, Poe tem uma linguagem tão intrincada as vezes, tmbm é fruto desta preocupação. Não havia ainda esse conceito e essa necessidade entre os escritores de aproximar a sua arte das massas, isso é coisa de nossa época e só se iniciou depois de 1929 com o surgimento de algumas escolas científicas humanistas progressistas como a Escola dos Annales, na França! Naquele tempo a manifestação literária era elitista mesmo. Tinha gente que escrevia em latim para o povo não conseguir entender!

Já Stephen King sim, escreve como fala e por isso sua escrita é pobre por que a linguagem do povo é pobre, tecnicamente, vernacularmente falando. Mas sabe, isso nem é o que mais me incomoda. Acho que a linguagem que King usa é suficiente pra gente ler, entender, e gostar. O problema mesmo é nas idéias. Parece que esses escritores atuais perderam a ousadia, perderam a capacidade de criar histórias estarrecedoras. E se afogam em tentativas de inovação que não funcionam.

A literatura é fruto de seu tempo, e o tempo evolui sempre, constantemente, mas como diria Hegel, nem toda evolução é para melhor.


Ah, ia esquecendo: A literatura gótica, entre outras coisas, faz parte de um movimento artístico chamado neogoticismo ou neogótico. Foi um movimento que dominou principalmente a arquitetura mas que se refletiu com muita força em outros ramos das artes na europa entre os seculos XVIII e XIX fazendo autores como Walpole se interessarem por temas com a estética medieval gótica. Agora sobre esta estética gótica originada pela arquitetura medieval, não cabe aqui uma explicação sobre isso pois seria extensa demais mas é daí que se origina tudo o que se conhece por gótico tanto em séculos passados como em nossos dias onde o termo, infelizmente, como tantos outros, foi desvirtuado.

Ah, ia esquecendo II: O Cemitério, livro moderníssimo de Stephen King, é um dos meus preferidos! Nem tudo está perdido! Rrssrsrsr
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Re: Entrevista

Mensagem por Poleto em Ter 1 Dez 2009 - 18:00

Concordo Henry. Mas os autores medíocres não são exclusividade do nosso tempo. Felizmente, não são mesmo. Smile

Quanto a linguagem usada, eu não concordo mesmo. Não necessariamente a linguagem escrita tem o mesmo tom da que é falada. Mas não acho que a forma literária era mais formal do que o usado à época. Como comparação, vamos pegar autores contemporâneos, mesmo os mais eruditos. Nenhum deles, apesar de escrever o português correto, escreve como Machado de Assis. Ninguém quer ler como um dicionário do lado, e acho que naquela época, ninguém queria isso também.
Se quiser comparar, procure textos da época, como notícias de jornais, artigos, etc. Verá que a linguagem de ambos é bem parecida.

E, de fato, o problema está nas idéias. Citei como exemplo Peter Straub, que preferiu trabalhar o lado mais literário, explorando idéias e fugindo dos clichês. Em troca, sua popularidade caiu.

Temos sim bons autores, mas, como não vendem muito, não recebem a devida atenção da mídia. Entretanto, os inovadores estão por aí, apenas mais difíceis de serem encontrados. E acredito que a situação deles não seja muito diferente da de nomes como Poe e Lovecraft, que, por ousarem e explorarem, também não obtiveram o sucesso merecido quando vivos.

Sinceramente, eu não acredito que muita coisa tenha mudado de lá pra cá. Mudaram as idéias, mas subjetivamente tudo continua a mesma coisa.

Ah, e sobre o gótico, eu sei que teve maior relevância na arquitetura, mas os ideiais são bem aqueles que descrevi. Não por isso estou tirando a importância dele. Smile
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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 18:14

Poleto escreveu:Concordo Henry. Mas os autores medíocres não são exclusividade do nosso tempo. Felizmente, não são mesmo. Smile

Quanto a linguagem usada, eu não concordo mesmo. Não necessariamente a linguagem escrita tem o mesmo tom da que é falada. Mas não acho que a forma literária era mais formal do que o usado à época. Como comparação, vamos pegar autores contemporâneos, mesmo os mais eruditos. Nenhum deles, apesar de escrever o português correto, escreve como Machado de Assis. Ninguém quer ler como um dicionário do lado, e acho que naquela época, ninguém queria isso também.
Se quiser comparar, procure textos da época, como notícias de jornais, artigos, etc. Verá que a linguagem de ambos é bem parecida.

E, de fato, o problema está nas idéias. Citei como exemplo Peter Straub, que preferiu trabalhar o lado mais literário, explorando idéias e fugindo dos clichês. Em troca, sua popularidade caiu.

Temos sim bons autores, mas, como não vendem muito, não recebem a devida atenção da mídia. Entretanto, os inovadores estão por aí, apenas mais difíceis de serem encontrados. E acredito que a situação deles não seja muito diferente da de nomes como Poe e Lovecraft, que, por ousarem e explorarem, também não obtiveram o sucesso merecido quando vivos.

Sinceramente, eu não acredito que muita coisa tenha mudado de lá pra cá. Mudaram as idéias, mas subjetivamente tudo continua a mesma coisa.

Ah, e sobre o gótico, eu sei que teve maior relevância na arquitetura, mas os ideiais são bem aqueles que descrevi. Não por isso estou tirando a importância dele. Smile


"Se quiser comparar, procure textos da época, como notícias de jornais, artigos, etc. Verá que a linguagem de ambos é bem parecida."


Sim, com certeza a linguagem usada em jornais e noticiários de todas as espécies era parecida com a linguagem usada em livros de literatura. E nenhuma das duas linguagens era a do povo. Mas pra entender isso, é preciso que se entenda a posição do povo dentro dos panoramas destes períodos para, de repente, não superestimar a posição popular no meio das preocupações dos meios intelectuais. Para os meios intelectuais destes períodos o povo não era absolutamente nada, e não adianta citar um ou outro abnegado que se preocupava com a ótica popular, pois ele será uma grande excessão. No geral, o povo era lixo ou pouco menos que isso. Aproximar a sua linguagem da linguagem do povo para um escritor era cometer suicídio literal.

Claro que existiam escritores ruins naquela época. Mas esses não contam. Nós estamos falando dos bons. Assim como existem bons escritores hoje em dia escondidos por aí, mas eles tmbm não contam, pois nós estamos falando dos conhecidos.


Última edição por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 21:08, editado 2 vez(es)
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Re: Entrevista

Mensagem por Flávio de Souza em Ter 1 Dez 2009 - 18:20

Salve Povo do Além!

Adorei as ponderações aqui relatadas...
Eu fico no meio termo, concordo com o mestre Henry que diz que falta criatividade e há uma banalização, chegando mesmo a uma falta de respeito com os princípios da Literatura Fantástica...
Concordo com o Poleto quando diz que a linguagem reflete o tempo, sem dúvidas que reflete...
E concordo com o Léo quando diz que há um consumismo desenfreado...
Dando uns pitacos, rsrsrsrs, eu diria que a preocupação quando se escreve algo, digo, da maneira como se escreve, precisa ser levada muito a sério, senão acaba ocorrendo o que o Henry disse, daqui a pouco teremos livros com linguagem de internet. Porém, acredito que não se pode cometer o erro de tentar apresentar ao leitor um texto recheado de palavras sem sentido prático por pura convenção ou padrão, se não os autores correm o risco de ficarem esquecidos com o passar dos anos. Isso ocorre com muitos autores brasileiros que, por força do tempo, acabaram por se tornarem apenas nomes e nada mais. Diferentemente do que ocorria com muitos de seus contemporâneos, Machado de Assis conseguiu manter um nível de aceitação incomparável no meu ponto de vista, sobretudo pela sua maneira de escrever, seu vocabulário mesmo, onde as pessoas conseguem ler e compreender, por baixo, mais de 80% do que está escrito, sem consulta. Isso é o que o diferencia e o torna, para mim, o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
Vejam, há uma diferença muito grande entre "impor" determinadas palavras dentro de um texto para que ele tenha uma aparência superior, e realmente compô-lo de modo que as palavras utilizadas se completem e tenham uma lógica dentro do que se pretende fazer. Temos um exemplo perto da gente, os textos do Victor são uma ode à Norma Culta, mas não feitos de forma soberba, e sim com uma finalidade que os deixa com uma aparência quase poética, bonita, que instiga o leitor, como um desafio, diferentemente do que faz muito autor, que escreve como se fosse um ser das alturas e como resultado recebe o mesmo interesse que leigos têm ao ler o código penal, por exemplo.
Eu, particularmente, gosto do Stephen King, alguns livros são muito bons, mesmo se valendo de situações estranhas e corriqueiras, eu gostei de Christine, a loucura e o amor que o protagonista nutria pelo carro é passado de forma quase palpável; o Iluminado, a aflição com os arbustos vivos é incrível; It, para mim o melhor livro dele, esqueçam o filme, isso é outra coisa; entre outros, lógico que há muita porcaria, como Jogo Perigoso e o interminável Torre Negra...
Assim como gosto do André Vianco, que não é terror, é apenas uma literatura de aventura que flerta com elementos sobrenaturais, evidente que a linguagem é popular, despretenciosa, mas consigo encontrar entretenimento ali, que é o que busco quando leio, viajar no enredo, imaginar a estória acontecendo, e encontro isso nos livros dele. Evidentemente que não comentaria sobre um trabalho que eu não tivesse lido, seria incoerência, portanto digo isso porque li inúmeros livros do SK e li todos do AV.
Eu acho incomparáveis as estórias ambientadas em castelos sinistros, florestas ameaçadoras, vilarejos macabros, mas acho que é possível compor bons enredos em cenários atuais, desde que, como disse o Mestre Henry, a criatividade esteja presente e os elementos fundamentais do terror sejam preservados.
Não podemos ser tão apegados ao passado, mas também não podemos conviver com o oba-oba, é necessário um ótimo senso e, sobretudo, coerência, tanto na hora de escrever, como no momento de escolhermos a nossa leitura. A moda passa, o que é bom, torna-se imortal, como um bom vampiro, rsrsrsrs.
Léo,
Concordo que a tecnologia pode causar alguns problemas, mas imagine a cena na qual fui protagonista. Com o carro enguiçado no meio de uma estrada de dez quilômetros, escura, à noite, onde de um lado só tinha um muro gigantesco de instalações militares e do outro só vegetação. Detalhe, havia esquecido o celular em casa! O que fazer? Nada, a não ser caminhar como um louco, ninguém dá carona, ninguém encosta para ajudar, com medo de ser assaltado durante a caminhada, rezando para encontrar o carro quando voltar...
Tem coisa que não dá para fugir, hoje, quem anda de carro, necessita de um celular, não tem jeito...

Abraços,

Flávio

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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 18:28

Flávio, eu também já passei por uma dessa. E fiquei numa estrada a 78 Km da cidade, no fim da tarde, por do sol, estrada deserta , sem asfalto (só lama), e sem sinal de celular, rssrsrsr. As laterais da estrada? A densa, gigantesca e escura floresta amazônica, dos dois lados!


Última edição por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 18:30, editado 2 vez(es)
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Re: Entrevista

Mensagem por Flávio de Souza em Ter 1 Dez 2009 - 18:29

Se olharmos Coelho Neto e Machado de Assis notaremos diferenças absurdas no vocabulário de ambos, MA, embora seja mais velho, possui uma linguagem muito mais atual do que CN ( preocupado demais com estilo ), como resultado temos MA absoluto e lido sempre, e CN esquecido, ninguém tem mais interesse ( ou paciência ) para lê-lo...

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Re: Entrevista

Mensagem por Flávio de Souza em Ter 1 Dez 2009 - 18:32

Henry, o sinal até tinha, porque é dentro da cidade mesmo, aqui no Rio, na Ilha, ao lado do Aeroporto, o problema é que trata-se de uma via secundária, Poletão deve saber onde é, a droga foi esquecer o celular...
Em estradas, entre cidades sobretudo, onde não há sinal de celular, pelo menos por aqui, sempre tem aqueles telefones de emergêcia ao lado das pistas, e o reboque chega, mas dentro da cidade, se não tiver o celular...já era...
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Re: Entrevista

Mensagem por Henry Evaristo em Ter 1 Dez 2009 - 18:37

Flávio de Souza escreveu:Henry, o sinal até tinha, porque é dentro da cidade mesmo, aqui no Rio, na Ilha, ao lado do Aeroporto, o problema é que trata-se de uma via secundária, Poletão deve saber onde é, a droga foi esquecer o celular...
Em estradas, entre cidades sobretudo, onde não há sinal de celular, pelo menos por aqui, sempre tem aqueles telefones de emergêcia ao lado das pistas, e o reboque chega, mas dentro da cidade, se não tiver o celular...já era...

Rsrsrsr....pelo menos tem os telefones de emergência. Aqui...não tem nada...só a mata te olhando, rsrsr. Se sair do carro, dependendo da estrada, ainda vc pode ter um encontro inesquecível com algum macaco mal humorado ou pior, com uma onça faminta! As cidades do norte são assim: Tá dentro da cidade, tá dentro da cidade. Saiu da cidade, por menos que seja, está na floresta selvagem.
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Re: Entrevista

Mensagem por Flávio de Souza em Ter 1 Dez 2009 - 18:43

Pois é, às vezes a gente está na cidade e parece estar na selva, pelo menos com os bichos a gente sabe o que esperar, o pior é com as pessoas, fiquei chateado por ninguém parar para ajudar, mas provavelmente faria o mesmo, como saber se o carro parado não é uma armadilha para assalto? É desconfiança o tempo todo...
Não sou consumista, mesmo porque nem tenho como ser, mas acho o celular uma ferramenta importante, nesse caso veio a somar, enquanto muitas outras só atrapalham e nos tornam mais "tapados"...
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Re: Entrevista

Mensagem por Tânia Souza em Ter 1 Dez 2009 - 21:13

Acho que conforme mudam os mistérios, mudam os medos também, tudo que o homem vai desvendando deixa de ser visto com a mesma "desconfiança" digamos assim, e querendo ou não, isso interfere nos textos literários. O que causava produnda impressão há vinte, trinta, cem ou trezentos anos hoje já não nos causa nada.

Sobre a tecnologia, ela pode ser um elemento do terror ou não, depende da criatividade do autor, mas não pode ser a única via senão fica tediosa, assim como contos escritos na atualidade que tenham sempre a linguagem e a ambientação dos séculos passados vão causar certa estranheza.

Pessoalmente acho difícil escrever um conto "contemporâneo" que consiga essa ambientação sombria que o terror exige, é algo que luto para conseguir e admiro mesmo quem consegue.

Quanto a linguagem, realmente, há que se ter certo cuidado, nem pedante, nem simples demais. A literatura em si exige o trato com a linguagem, mas esse trato é justamente a capacidade do autor de brincar e criar universos com as palavras.


É, é isso, só dando uns pitacos, adorei ler essas postagens.
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Re: Entrevista

Mensagem por Victor em Qua 2 Dez 2009 - 8:25

Que bela e instrutiva discussão! Aliás, como todo embate de idéias deveria ser! Com cavalheiros, e damas, expondo suas considerações, alicerçados por impressionante conhecimento do assunto abordado! Este é o Fórum da Câmara dos Tormenos, um lugar genial!
Bem, meus saberes sobre literatura fantástica são parcos, desconfortavelmente até. Mas, de tudo que li neste universo literário, a sensação que me fica, até agora, é a exemplificada pelo Mestre Henry. Mesmo a escrita atual refletindo os costumes (e tudo o que isto representa) dessa época, ainda fico com saudades do estilo dos gênios do passado. Conquanto existam escritores que, a meu ver, estão a altura dos grandes mestres, como Henry Evaristo, Paulo Soriano e Carlos Orsi (este último não mais adotando o estilo de Lovecraft, ao que parece). Entretanto, como concordaram todos até agora, são as idéias que realmente fazem a diferença! Escrevê-las bem, é indispensável. E, estudando nossa lingua, qualquer um (ou quase rsrsrs) consiguirá. Mas as idéias, embora dependam de estudo tbem, estão além deste esforço. Seja em castelos, em mansões, em celeiros, em casebres, em florestas, enfim, seja onde for, a idéia é que construirá um grande texto. Quando leio Machado de Assis, Poe, Lovecraft, o Barão, Henry, muitas e muitas vezes recorro ao dicionário, e exulto com isso, pois aprendo a todo instante. Mas as idéias destes caras estão além da sua linguagem! Quando leio o Flávio, o Luciano, a Tânia, o Afonso, O Luiz, o Márcio, a Celly, e os outros grandes amigos do fórum, não preciso do léxico à mão. Mas, outra vez, não importa, pois são suas incríveis idéias que me ensinam a toda hora.
Ah, em tempo: obrigado, Flávio, meu amigo, pela consideração à respeito de alguns dos meus textos. Conquanto já fui acusado de pedantismo por um ou outro (rsrsrsrsrrs), escrevo sob a pressão das palavras insólitas em minha petulante tentativa de por no papel algumas idéias que surgem, vez o outra. Abração à todos os inestimáveis seres deste fórum!
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